Antes e depois do foiling oceânico
Há cerca de 15 anos, um IMOCA 60 levava perto de 90 dias para completar o Vendée Globe — a volta ao mundo solitária e sem escalas. Na edição de 2024-2025, o francês Charlie Dalin, a bordo do MACIF Santé Prévoyance, cruzou a linha de chegada em 64 dias, 19 horas e 22 minutos, pulverizando o recorde anterior — 74 dias e 3 horas, estabelecido por Armel Le Cléac’h em 2016-17 — por quase nove dias inteiros. A diferença entre uma era e outra? O foiling oceânico.
IMOCA 60 com foils: uma nova espécie de barco
Os IMOCA 60 de última geração são equipados com foils laterais retráteis, apêndices em forma de asa que, em condições favoráveis de vento, literalmente levantam boa parte do casco de 18 metros para fora da água. O resultado é uma velocidade média de travessia oceânica muito superior à de uma geração atrás, com picos de velocidade instantânea que ultrapassam os 35 nós em rajadas favoráveis.
O desafio é imenso: navegando sozinho, no meio do Atlântico ou do Índico Sul, um foil que encontra a água em ângulo errado — ou que colide com um objeto flutuante — pode significar uma capotagem em alta velocidade, longe de qualquer socorro imediato. Cada velejador do Vendée Globe é também um engenheiro que gerencia a complexidade de um veleiro voador em condições oceânicas extremas, muitas vezes com dias de sono fragmentado em blocos de vinte minutos.
Vendée Globe: a corrida mais radical do planeta
O Vendée Globe acontece a cada quatro anos: uma volta ao mundo solitária, sem escalas e sem qualquer assistência externa. Os velejadores partem de Les Sables-d’Olonne, na França, descem o Atlântico, cruzam o Cabo da Boa Esperança, navegam pelo Índico e pelo Pacífico Sul, dobram o temido Cabo Horn e retornam ao ponto de partida — um percurso de dezenas de milhares de milhas náuticas, sozinhos, por dois meses ou mais. A edição de 2024-25 foi a décima da história da prova, criada em 1989; a próxima está prevista para 2028.
Ocean Race e o uso do IMOCA
A Ocean Race também incorporou os IMOCA 60 ao seu formato atual, permitindo que os mesmos barcos — ou modelos muito semelhantes — que disputam o Vendée Globe individualmente compitam em equipe na prova de volta ao mundo por etapas. É a convergência entre duas das provas mais icônicas da vela oceânica, com a diferença de que, na Ocean Race, uma tripulação de quatro ou cinco pessoas revezam-se nas funções a bordo, o que muda completamente a dinâmica de gestão de energia e risco em comparação com a solidão do Vendée Globe.
O que essa tecnologia representa para o futuro
O salto de performance do foiling oceânico não fica restrito à competição: arquitetos navais e estaleiros já aplicam princípios semelhantes em cruzeiros de alta performance e em projetos como o Ferrari Hypersail, mostrando que a fronteira testada nas regatas solitárias do Atlântico Sul tende a chegar, com o tempo, a embarcações de uso mais amplo.
Náutica BR — vela oceânica e performance no mar.