A Ocean Race é a volta ao mundo a vela por equipes mais desafiadora do planeta, disputada a cada poucos anos desde 1973. Na sua edição mais recente com volta ao mundo completa, a competição saiu de Alicante, na Espanha, e percorreu cerca de 32.000 milhas náuticas (mais de 60.000 km) passando pelos principais oceanos do globo — incluindo as temidas águas do Mar do Sul, consideradas as mais perigosas do mundo para a navegação.

O formato da competição
As equipes navegam em barcos IMOCA 60 — monocascos foiling de 60 pés projetados para suportar condições extremas em qualquer condição de mar. Diferente do SailGP, que usa catamarãs foiling em regatas curtas e costeiras, a Ocean Race prioriza a resistência: as tripulações ficam no mar por semanas seguidas, dormindo em turnos e enfrentando tempestades, gelo e ventos que podem superar 50 nós, muitas vezes a milhares de quilômetros de qualquer costa ou resgate rápido.
Ciclo atual: de 2023 à próxima volta ao mundo em 2027
A última edição com volta ao mundo completa terminou em 2023, com a histórica vitória do 11th Hour Racing Team — a primeira equipe dos Estados Unidos a vencer a prova em toda a sua história. Entre uma volta ao mundo e outra, a organização mantém o circuito aquecido com eventos intermediários: em 2025, a Ocean Race Europe levou o fleet IMOCA de Kiel, na Alemanha, até a Baía de Boka, em Montenegro — passando por Portsmouth (Reino Unido), Cartagena (Espanha, com escala em Matosinhos-Porto, Portugal), Nice e Gênova (Itália) — em um percurso de cerca de 4.500 milhas náuticas ao longo de cinco semanas, dividido em cinco etapas. A equipe francesa Biotherm, comandada por Paul Meilhat, dominou o evento ao vencer quatro das cinco pernas e fechar a campanha com folga na liderança geral, somando 48 dos 52 pontos possíveis. A próxima volta ao mundo completa está marcada para janeiro de 2027, novamente com largada em Alicante, reunindo as principais equipes do circuito IMOCA para outro périplo pelos quatro oceanos.
Por que acompanhar a Ocean Race
Para quem ama vela oceânica, a Ocean Race é o evento definitivo. Ela expõe a vela de performance a um público global e coloca em evidência questões como sustentabilidade, coleta de dados oceanográficos e inovação em materiais — os barcos IMOCA carregam sensores científicos que registram temperatura, salinidade e concentração de CO2 da água ao longo de toda a rota, dados usados por institutos de pesquisa oceânica ao redor do mundo. As paradas em cidades litorâneas costumam reunir centenas de milhares de visitantes durante os chamados “Race Villages”, com barcos abertos à visitação pública e programação para toda a família.
Com a próxima volta ao mundo se aproximando em 2027, o intervalo atual é o momento em que novas equipes se formam, barcos são projetados e testados, e velejadores buscam experiência em eventos intermediários como a Ocean Race Europe. Acompanhar essa fase de preparação é, para o torcedor mais atento, tão interessante quanto a própria corrida — é nela que se decide quais equipes chegarão mais bem preparadas para as 32.000 milhas náuticas que os esperam pela frente.
O que esperar da próxima volta ao mundo
Com a data de largada confirmada para janeiro de 2027, os estaleiros que constroem IMOCA 60 já trabalham a todo vapor produzindo novos cascos otimizados para foiling em condições oceânicas — uma evolução constante desde que a classe adotou os foils totalmente suspensos. Equipes tradicionais devem anunciar seus line-ups e patrocinadores ao longo de 2026, enquanto skippers que se destacaram no Vendée Globe e na Ocean Race Europe surgem como favoritos para liderar as principais campanhas. Para o público brasileiro, que ainda tem pouca tradição de acompanhar vela oceânica de longa distância, esse ciclo de preparação é uma boa oportunidade para conhecer o esporte antes da grande largada, entendendo o formato, as equipes e a tecnologia que tornam a Ocean Race uma das provas mais duras do calendário esportivo mundial.
O peso científico por trás da competição
Além da disputa esportiva, a Ocean Race carrega um componente científico relevante: os barcos IMOCA equipados com sensores oceanográficos percorrem trechos remotos do planeta raramente monitorados por embarcações de pesquisa tradicionais, contribuindo com dados que instituições científicas de diferentes países utilizam para estudar temperatura, salinidade e saúde geral dos oceanos. Essa dimensão de ciência cidadã aplicada ao esporte é um dos diferenciais que distingue a Ocean Race de outras competições de vela puramente voltadas à performance.
A vida a bordo durante semanas de navegação
Para quem nunca acompanhou de perto, é difícil dimensionar o que significa passar semanas seguidas dentro de um casco de fibra de carbono, dormindo em turnos curtos, comendo alimentos liofilizados e enfrentando temperaturas que variam de calor tropical a frio extremo nas passagens mais austrais da rota. A gestão de energia física e mental da tripulação é tão determinante para o resultado final quanto a velocidade pura da embarcação — um aspecto que aproxima a Ocean Race de provas de resistência extrema em outras modalidades esportivas.
Por que Itajaí segue relevante para o circuito
A presença recorrente de escalas brasileiras no histórico da competição reforça a posição do país no calendário internacional da vela oceânica, oferecendo à organização um porto estratégico na América do Sul entre as travessias dos oceanos Atlântico e Pacífico. Para o público brasileiro, essas escalas são raras oportunidades de ver de perto embarcações e tripulações que acabaram de enfrentar semanas de navegação em alto-mar, geralmente com direito a visitação pública e programação especial nos chamados Race Villages montados durante a parada.
O ciclo de preparação como parte do espetáculo
Enquanto a próxima largada não chega, o período entre edições completas costuma ser tão movimentado quanto a própria corrida para quem acompanha de perto o desenvolvimento das equipes: novos patrocínios são anunciados, cascos são otimizados nos estaleiros e velejadores trocam de campanha em busca da formação mais competitiva possível para a largada seguinte. Esse processo de amadurecimento técnico é parte do que torna o intervalo entre uma volta ao mundo e outra tão interessante quanto a disputa em si para o torcedor mais atento ao esporte.
Como o 11th Hour Racing Team venceu mesmo sem terminar a última perna
O desfecho da edição 2022-23 é um dos mais peculiares da história recente da Ocean Race: líder de boa parte da classificação geral, o 11th Hour Racing Team foi forçado a abandonar a última perna da competição, entre Haia e Gênova, apenas 27 minutos depois da largada, após uma colisão sem culpa com uma equipe concorrente. O júri internacional da World Sailing concedeu à equipe americana 4 pontos de reparação, suficientes para fechar a temporada com 37 pontos e garantir o título geral mesmo sem cruzar a linha de chegada daquela etapa final — um desfecho que gerou debate no meio náutico sobre o peso das decisões de júri em provas de resistência tão longas. A velejadora italiana Francesca Clapcich, integrante da tripulação vencedora, tornou-se a primeira mulher do país a vencer a competição.
Team Holcim-PRB: os primeiros a liderar, mas não os últimos a vencer
Vale destacar que a suíça Team Holcim-PRB, comandada pelo navegador francês Kevin Escoffier, venceu as duas primeiras pernas da edição 2022-23 e chegou a liderar a classificação geral no início da competição. Escoffier, sobrevivente de um naufrágio dramático durante o Vendée Globe de 2020 — quando seu barco literalmente se partiu ao meio em alto-mar no Atlântico Sul —, não conseguiu sustentar a vantagem inicial ao longo do restante da volta ao mundo, mas seu desempenho nas etapas iniciais reforça como a liderança numa prova de meses de duração pode mudar de mãos várias vezes antes da definição final do título.
Por que 2027 promete ser a edição mais desafiadora da história
Com a largada de Alicante marcada para 17 de janeiro de 2027 e uma primeira perna recorde de 14 mil milhas náuticas até Auckland, a próxima edição completa da Ocean Race já promete superar em dificuldade logística e física qualquer edição anterior da competição. Depois de Auckland, o trajeto confirmado segue até Itajaí, em Santa Catarina, antes de escalas nos Estados Unidos e na Europa, retornando ao Mediterrâneo através do Canal de Suez até o sprint final em Amaala, no Mar Vermelho — um roteiro que combina a travessia mais longa já disputada com uma diversidade geográfica inédita para uma única edição da prova.