BMW apresenta mini-iate elétrico com baterias de carro

A BMW deu mais um passo na direção da eletrificação náutica ao apresentar, em parceria com a startup alemã Tyde, o ‘The Icon’ — um mini-iate elétrico de 13,15 metros de comprimento (12,95 m na linha d’água), com 4,50 m de largura, equipado com dois motores elétricos Torqeedo Deep Blue 100i de 100 kW cada, alimentados por seis baterias que somam 240 kWh de capacidade, tecnologia diretamente emprestada da linha de carros elétricos da montadora alemã.

Foto: Compre Náutica

Ficha técnica: velocidade, autonomia e preço

O barco tem capacidade para 8 passageiros e calado de apenas 0,85 m quando navegando sobre os foils — contra 1,87 m no modo deslocamento tradicional, sem usar as hidrofólias. A velocidade máxima informada é de 30 nós (cerca de 55 km/h), com autonomia de 50 milhas náuticas (aproximadamente 93 km) navegando a 24 nós. O tempo de recarga completa das baterias é estimado em 5,5 horas. O preço de partida do modelo foi fixado em 1,9 milhão de euros — o que, na cotação atual, equivale a algo acima de R$ 11 milhões, valor que o posiciona claramente no segmento mais alto do mercado de embarcações de lazer.

O design de foil do ‘The Icon’ foi assinado por Guillaume Verdier, engenheiro naval francês conhecido por projetar cascos vencedores da Copa América — uma credencial que reforça o pedigree técnico do projeto e ajuda a explicar o ganho de eficiência energética anunciado pela Tyde: segundo a fabricante, a tecnologia de foil torna a embarcação até 80% mais eficiente do que um casco planante tradicional de tamanho equivalente, já que reduz drasticamente o atrito com a água ao erguer o casco para fora da superfície em velocidade de cruzeiro.

Um projeto ainda em fase de protótipo

O projeto ainda está na fase de protótipo, mas já reforça uma tendência que vem ganhando força na indústria náutica global: o uso de plataformas de bateria originalmente desenvolvidas para carros elétricos em embarcações de médio porte, aproveitando anos de investimento em pesquisa e desenvolvimento que as montadoras de automóveis já fizeram nessa tecnologia. Para a BMW, aplicar sua própria tecnologia de baterias num barco é uma forma de expandir o alcance da marca para além do mercado automotivo tradicional, entrando num nicho de luxo que já vem sendo disputado por diferentes fabricantes ao redor do mundo.

A Tyde, parceira da BMW no projeto, é uma startup alemã especializada em embarcações elétricas de alto desempenho, com foco em hidrofólios — tecnologia que eleva parcialmente o casco da embarcação para fora da água, reduzindo o atrito e aumentando a eficiência energética. Essa combinação de hidrofólio com propulsão elétrica é vista como um dos caminhos mais promissores para reduzir o consumo de energia em embarcações de lazer, um problema histórico das lanchas e iates elétricos tradicionais, que costumam sofrer com autonomia limitada por causa do arrasto da água no casco.

Como o ‘The Icon’ se encaixa na safra de barcos elétricos recente

O lançamento do ‘The Icon’ acontece num momento em que a indústria náutica mundial vem apresentando uma safra cada vez maior de embarcações elétricas e híbridas: do brasileiro JAQ H1, movido a hidrogênio verde e apresentado no Marina Itajaí Boat Show, ao iate solar Helios 11, que atravessou milhares de quilômetros sem reabastecer, passando por modelos híbridos como o Greenline 50. A entrada de uma montadora do porte da BMW nesse mercado é vista como um sinal de que a eletrificação náutica está deixando de ser nicho para se tornar tendência de mercado mais consolidada — o mesmo movimento que a indústria automotiva viveu havia pouco mais de uma década, quando as primeiras montadoras de peso começaram a lançar modelos elétricos de série.

O que falta para o ‘The Icon’ chegar ao mercado

Por ora, o ‘The Icon’ segue como prova de conceito da BMW e da Tyde, sem data de produção em série anunciada. A fabricante já realizou testes de navegação e apresentações a potenciais compradores em eventos do setor náutico de luxo na Europa, mas o caminho até a entrega das primeiras unidades comerciais ainda depende de homologação e ajustes finais de engenharia — processo comum em projetos desse porte, que costuma levar de um a três anos entre o protótipo funcional e a primeira unidade entregue a um cliente.

E o mercado brasileiro?

Para o mercado brasileiro, ainda distante da produção local desse tipo de tecnologia em escala, lançamentos como o da BMW servem como vitrine do que deve chegar ao país nos próximos anos — provavelmente primeiro como produto de importação de altíssimo padrão, restrito a um público muito específico de compradores de iates de luxo, antes de eventualmente se popularizar em escalas menores de embarcação. Ainda assim, o projeto reforça a aposta da indústria automotiva em expandir sua tecnologia de baterias para outros meios de transporte além dos carros — um movimento que tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que a eletrificação avança também no setor náutico global.

Torqeedo, a fornecedora dos motores elétricos

Os dois motores Deep Blue 100i usados no ‘The Icon’ são fabricados pela Torqeedo, empresa alemã especializada em propulsão elétrica náutica que pertence ao grupo Yara Marine desde 2023, depois de anos sob controle da própria Deutz. A linha Deep Blue é hoje uma das mais usadas em projetos de eletrificação de embarcações de médio porte ao redor do mundo, o que ajuda a explicar por que a BMW e a Tyde optaram por integrar essa tecnologia já validada em outros projetos, em vez de desenvolver um motor elétrico proprietário do zero — uma decisão que reduz custo e tempo de desenvolvimento do protótipo.

O mercado de superiates elétricos ainda é pequeno, mas cresce rápido

Apesar do entusiasmo em torno de lançamentos como o ‘The Icon’, o mercado de embarcações de lazer 100% elétricas ainda representa uma fração pequena do total de vendas do setor náutico de luxo mundial, muito por conta do preço elevado e da autonomia ainda limitada em comparação com embarcações a combustão de porte semelhante. Ainda assim, o crescimento ano a ano no número de lançamentos elétricos e híbridos é consistente, com estaleiros tradicionais cada vez mais dispostos a investir em pesquisa nessa área — inclusive por pressão regulatória crescente em países europeus, que já debatem restrições à navegação de embarcações movidas a combustão fóssil em determinadas áreas de proteção ambiental costeira e lacustre.

Outros projetos de eletrificação náutica que já rodam o mundo

O ‘The Icon’ entra numa lista que já inclui projetos como o Candela C-8, lancha elétrica sueca também equipada com foils que já opera em serviços de transporte público aquático em Estocolmo, e barcos híbridos da linha Greenline, fabricados na Eslovênia e vendidos em diversos países, inclusive no Brasil. Essa comparação ajuda a situar o ‘The Icon’ dentro de um movimento mais amplo da indústria náutica: cada fabricante aposta numa combinação diferente de tecnologia de foil, capacidade de bateria e proposta de uso, testando qual arranjo consegue equilibrar melhor autonomia, velocidade e conforto a bordo — sem que exista, até aqui, um consenso único sobre qual caminho vai prevalecer no segmento de embarcações elétricas de médio e grande porte nos próximos anos.

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