Como funciona um catamarã foiling tipo SailGP: a tecnologia que faz barcos voarem

Um barco que voa sobre a água a mais de 100 km/h parece ficção científica — mas é exatamente o que acontece em cada largada do SailGP. O catamarã F50 é uma das máquinas náuticas mais avançadas já colocadas em competição em série. Entenda a física, a engenharia e a emoção por trás do foiling.

O que é foiling

Foiling é a capacidade de uma embarcação elevar seu casco completamente acima da superfície da água, apoiado apenas sobre hydrofoils — apêndices submersos em formato de asa que funcionam pelo mesmo princípio das asas de um avião.

O foiling não é novo — as primeiras experiências datam do início do século XX. Mas foi apenas nas últimas décadas que a tecnologia de fibra de carbono, os sensores eletrônicos e o conhecimento acumulado pela indústria aeronáutica permitiram criar barcos de foiling verdadeiramente rápidos, estáveis e seguros para competição profissional.

Por que o barco “voa” sobre a água

A física é elegante: conforme o barco ganha velocidade, a água que passa pelos hydrofoils cria uma diferença de pressão entre a face superior e inferior do apêndice. Essa diferença de pressão gera sustentação — exatamente como uma asa de avião sustenta a fuselagem no ar.

Com sustentação suficiente, o casco do catamarã se eleva da água. Uma vez no ar, o atrito com a superfície cai drasticamente — e a velocidade sobe de forma expressiva. É um ciclo virtuoso: mais velocidade gera mais sustentação, que reduz o atrito, que permite ainda mais velocidade.

No F50, os hydrofoils são controlados por um sistema complexo de sensores e atuadores que ajustam o ângulo dos foils muitas vezes por segundo, mantendo o barco estável mesmo em condições de vento variável e ondulação.

Estabilidade, velocidade e segurança

Manter um catamarã de menos de uma tonelada voando a mais de 90 km/h sobre a água exige precisão milimétrica. A tripulação de cerca de cinco atletas trabalha em constante sincronia: o piloto controla a direção, os trimadores ajustam a vela rígida e o especialista em foil monitora a altura de voo em tempo real.

O recorde de velocidade de um F50 em competição foi registrado em 2025, pela equipe da Dinamarca (Rockwool Denmark SailGP Team), na etapa da Alemanha, em Sassnitz: 56,1 nós, o equivalente a cerca de 104 km/h. A marca veio depois da introdução, em 2024, de um novo desenho de foils em formato de T, que substituiu o modelo anterior em L e trouxe mais sustentação e estabilidade em alta velocidade, permitindo que o barco voe mais “plano” e mais rápido. Nas regatas do dia a dia, a velocidade média costuma ficar bem abaixo do recorde, variando principalmente conforme a força do vento em cada etapa.

Em caso de queda — chamada de “crash” no jargão do SailGP —, os protocolos de segurança são rigorosos. Todos os tripulantes usam coletes infláveis, capacetes e roupas de proteção com sistema de respiração de emergência para o caso de ficarem submersos sob o casco. As embarcações de resgate ficam posicionadas próximas ao percurso durante toda a regata, prontas para agir rapidamente em caso de acidente.

Do laboratório de regatas ao mercado náutico

A tecnologia de foiling testada e refinada no SailGP não fica restrita às competições: sistemas de controle de voo, materiais compósitos e soluções de sensoriamento desenvolvidos para os F50 vêm influenciando o design de iates de cruzeiro, embarcações de resgate e até projetos como o Ferrari Hypersail, que aplica princípios semelhantes em escala oceânica.

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