Ferretti lanca iate inspirado no jeito brasileiro de viver o mar

A Ferretti, um dos grupos mais tradicionais da indústria náutica de luxo mundial, apresentou o Ferretti Yachts 850R, novo modelo cujo design se inspira diretamente no chamado “jeito brasileiro” de viver o mar — um reconhecimento simbólico do peso crescente que o Brasil vem ganhando como mercado consumidor de embarcações de alto padrão. O lançamento aconteceu no Marina Itajaí Boat Show 2026, com produção 100% nacional a cargo do Grupo OKEAN, em Santa Catarina.

Foto: Forbes Brasil

Ficha técnica do Ferretti Yachts 850R

O 850R tem 27 metros de comprimento, quatro suítes e capacidade para até 12 hóspedes pernoitando a bordo. O flybridge — deck superior aberto — soma 44 metros quadrados, e a propulsão é feita por dois motores MAN V12 de 1.900 cavalos cada, conjunto que garante desempenho compatível com o porte da embarcação mesmo em condições de mar mais desafiadoras.

O único estaleiro autorizado pela Ferretti fora da Itália

O Grupo OKEAN, com sede em Santa Catarina, é hoje o único estaleiro autorizado pela própria Ferretti a fabricar embarcações da marca fora da Itália — um detalhe que evidencia o nível de confiança que a fabricante italiana deposita na operação brasileira. A produção do 850R é dividida entre diferentes cidades catarinenses: a marcenaria fica em Rio Negrinho, as peças em fibra de vidro são fabricadas em Porto Belo, e a montagem final acontece numa unidade de 26 mil metros quadrados em Itajaí. Segundo Roberto Paião, CEO do grupo, cerca de 500 profissionais participam da operação, com produção estimada em quatro a cinco unidades por ano.

O que significa um design inspirado no Brasil

Quando um estaleiro do porte da Ferretti decide desenvolver um modelo com inspiração explícita no estilo de vida náutico de um país específico, isso normalmente reflete estudo de mercado aprofundado sobre como aquele público consome e usa embarcações no dia a dia. No caso do 850R, ao contrário dos modelos europeus da linha original — que priorizam armários fechados e cruzeiros de longa distância —, a versão brasileira aposta na vida ao ar livre: os sofás da popa foram reposicionados de frente para o mar, para estimular a convivência social durante a navegação, o portal de vidro foi ampliado para valorizar a vista do oceano, e a plataforma de popa foi estendida para facilitar o embarque de jet skis e do bote auxiliar (tender).

O destaque fica para o beach club integrado, com mobiliário modular, eletrodomésticos, sistema de som, iluminação indireta e acabamento em teca — um espaço pensado especificamente para receber grupos grandes de amigos e família, hábito recorrente entre proprietários brasileiros de embarcações de luxo.

Por que o Brasil virou referência para estaleiros internacionais

O mercado náutico brasileiro vem mostrando força consistente nos últimos anos, com eventos como o Marina Itajaí Boat Show reunindo dezenas de embarcações e atraindo investimento relevante de estaleiros nacionais e internacionais. A própria linha original FY 850 já havia vendido 20 unidades ao redor do mundo, das quais dez foram entregues a proprietários brasileiros — uma fatia expressiva que ajuda a explicar por que a Ferretti decidiu investir num desenvolvimento específico para esse público, em vez de simplesmente adaptar o catálogo já existente.

A presença confirmada de marcas como a própria Azimut, com produção também concentrada em Santa Catarina, já mostrava como o Brasil deixou de ser apenas mercado consumidor e passou a ser também polo de fabricação náutica de padrão internacional. Esse tipo de reconhecimento por parte da Ferretti — desenvolver um produto com inspiração direta no consumidor brasileiro — é um passo além da simples venda de unidades já existentes no catálogo global da marca: é sinal de que o Brasil já é considerado mercado estratégico o suficiente para justificar desenvolvimento de produto específico, não apenas adaptação de modelos já prontos.

O segmento de luxo náutico no Brasil

O segmento de iates e superiates no Brasil segue em expansão, puxado por um público de alta renda que busca embarcações cada vez mais sofisticadas, tanto para uso próprio quanto para operações de charter de luxo — segmento que também vem crescendo no país, especialmente em destinos como Angra dos Reis, Ilhabela e o litoral de Santa Catarina. O próprio litoral catarinense, aliás, vem se consolidando como um dos principais polos de produção naval de alto padrão da América do Sul, reunindo diferentes estaleiros internacionais que escolheram o estado para instalar ou expandir operações locais.

O que observar daqui pra frente

Resta acompanhar como o mercado brasileiro de alto padrão vai receber o novo modelo da Ferretti, e se outros estaleiros internacionais seguem o mesmo caminho de desenvolver produtos com inspiração direta no consumidor brasileiro — um movimento que, se confirmado como tendência, deve consolidar ainda mais o Brasil como protagonista global no segmento de embarcações de luxo, tanto do lado da fabricação quanto do lado do consumo de alto padrão.

Ferretti Group: mais de 60 anos de história

Fundado em 1968 por Norberto Ferretti, o Ferretti Group cresceu ao longo das décadas por meio da aquisição de outros estaleiros históricos italianos, entre eles a própria Benetti — fundada ainda em 1873 e considerada um dos mais antigos estaleiros de iates de luxo ainda em atividade no mundo — além de marcas como Riva, Pershing, Itama, CRN e Custom Line. Hoje o grupo é negociado na bolsa de Hong Kong e mantém operação industrial concentrada na Itália, com a unidade brasileira do Grupo OKEAN representando a única exceção geográfica dentro da estrutura de produção da marca Ferretti Yachts.

Essa trajetória de aquisições ajuda a explicar por que a chegada de um modelo pensado especificamente para o consumidor brasileiro é vista como um movimento relevante dentro do mercado náutico de luxo: grupos com histórico tão consolidado raramente desenvolvem uma variante regional exclusiva sem antes validar, com dados concretos de vendas, que aquele mercado específico sustenta esse tipo de investimento em engenharia e design.

Como funciona a compra de um iate desse porte no Brasil

A aquisição de uma embarcação como o Ferretti Yachts 850R no Brasil costuma envolver processos de importação ou, no caso da produção nacional do Grupo OKEAN, tributação facilitada por ser produto de fabricação local — um diferencial competitivo relevante frente a modelos importados de estaleiros europeus, que enfrentam alíquotas mais altas de importação sobre embarcações de luxo. Além do valor do barco em si, compradores desse segmento costumam considerar custos recorrentes como vaga de marina, manutenção especializada, seguro náutico e tripulação fixa — despesas que, somadas, podem representar uma fração significativa do valor anual de posse da embarcação.

O papel das marinas brasileiras nesse ecossistema

O crescimento de estaleiros como o Grupo OKEAN em Santa Catarina anda de mãos dadas com a expansão da infraestrutura de marinas de alto padrão no litoral brasileiro, especialmente em destinos como Angra dos Reis, Ilhabela, Balneário Camboriú e Itajaí. Essa infraestrutura é pré-requisito para sustentar a demanda por embarcações do porte do 850R, já que iates de 27 metros exigem vagas específicas, com profundidade mínima de calado e estrutura de apoio compatível com o tamanho e o peso da embarcação — detalhe que nem toda marina brasileira ainda está preparada para oferecer.

Para o comprador que já possui uma embarcação menor e está migrando para o segmento de superiates, a recomendação de especialistas do setor é reservar a vaga na marina com bastante antecedência em relação à entrega do barco — em muitos casos, meses antes —, já que a demanda por vagas compatíveis com embarcações acima de 25 metros cresce mais rápido do que a oferta nos destinos mais concorridos do litoral brasileiro.

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