Martine Grael deixa o Mubadala Brazil no SailGP: entenda a saída e quem assume o F50 brasileiro

O Mubadala Brazil SailGP Team, equipe brasileira da liga internacional de vela de alta velocidade, confirmou a saída de Martine Grael do time a três etapas do fim da temporada 2026. O anúncio foi feito pela própria velejadora em suas redes sociais nesta sexta-feira (11), com uma mensagem direta: “Oficialmente desempregada. Obrigada por todo apoio!”. Horas depois, a organização do time confirmou a mudança em comunicado oficial, encerrando um ciclo de dois anos que colocou o Brasil, pela primeira vez, entre as nações competidoras do SailGP.

A notícia chega poucos meses depois de o SailGP ter realizado sua estreia histórica em águas brasileiras, em abril de 2026, quando o Rio de Janeiro recebeu o Enel Rio Sail Grand Prix na Baía de Guanabara. Agora, é a saída de sua principal protagonista que movimenta o noticiário da vela nacional.

Catamarãs F50 do SailGP competindo lado a lado durante uma etapa do campeonato

F50 do SailGP em ação durante etapa em San Francisco. Foto: Gregory Varnum / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O que diz o comunicado do Mubadala Brazil

Segundo o documento divulgado pela equipe e compartilhado com a imprensa especializada, Martine Grael optou por não concluir a temporada de 2026 com o time, que passará a contar com uma nova formação nas três etapas finais do campeonato. A nota destaca que a mudança já vinha sendo planejada “de forma profissional e estruturada” para este momento do calendário, e agradece a contribuição da velejadora desde a criação do projeto:

“Martine esteve com a gente desde a criação do projeto e teve um papel muito importante nessa trajetória, contribuindo para a construção e o desenvolvimento do time ao longo desses dois anos. Agradecemos por toda essa parceria e pelo trabalho realizado juntos.”

Com a saída de Grael, o comando do F50 brasileiro passa a ser do britânico Paul Goodison, campeão olímpico e mundial da classe Laser, enquanto a brasileira Marina Arndt assume a posição de estrategista. A movimentação não é uma novidade completa: durante a sétima etapa da temporada, em Halifax, no Canadá, o time já havia testado essa mesma configuração, com Goodison no leme e Martine atuando como estrategista — um ensaio que, à luz do anúncio desta sexta-feira, se confirma como o prenúncio da mudança definitiva.

Uma trajetória pioneira que termina na 13ª colocação

A entrada do Brasil no SailGP foi anunciada em junho de 2024, tornando o país a primeira nação sul-americana a integrar o grid da competição. Em setembro daquele ano, Martine Grael foi apresentada como driver do time, o que fez dela a primeira mulher da história do SailGP a comandar um F50 — os catamarãs voadores de 50 pés (cerca de 15 metros) capazes de ultrapassar os 100 km/h sobre foils.

A estreia oficial da equipe aconteceu em novembro de 2024, no Dubai Sail Grand Prix, abertura da temporada 2024/25. Os meses seguintes foram marcados por um processo de adaptação à categoria, historicamente dominada por velejadores oriundos do circuito olímpico de classes rápidas e do America’s Cup. A primeira vitória em uma regata do time brasileiro veio na sexta etapa da temporada, disputada em Nova York.

Já na etapa do Rio de Janeiro, em abril de 2026 — a primeira do SailGP em solo brasileiro —, o Mubadala Brazil terminou na 10ª colocação, enquanto o time australiano Bonds Flying Roos levou o título da etapa. Martine Grael deixa a equipe na 13ª e última posição do campeonato, com 8 pontos somados ao longo da temporada. Lideram a classificação geral os próprios australianos, com 85 pontos, seguidos pelos espanhóis do Los Gallos, com 68, e pela equipe dos Estados Unidos, com 56.

Martine Grael e Kahena Kunze comemoram medalha de ouro na vela dos Jogos Olímpicos Rio 2016

Martine Grael, bicampeã olímpica de vela, em 2016, quando conquistou o ouro na Baía de Guanabara ao lado de Kahena Kunze. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Quem é Martine Grael

Antes de chegar ao SailGP, Martine Grael já era uma das velejadoras mais premiadas da história do esporte brasileiro. Filha do lendário Torben Grael, ela conquistou o ouro olímpico na classe 49er FX ao lado de Kahena Kunze nos Jogos do Rio 2016, disputados justamente na Baía de Guanabara, e revalidou o título em Tóquio 2020. A dupla também acumula títulos mundiais na categoria, consolidando Martine como uma referência na vela de alto rendimento muito antes de se tornar a primeira mulher a pilotar um F50.

Ao aceitar o desafio do SailGP em 2024, Grael migrou de uma classe olímpica mais leve para os catamarãs voadores da liga, uma transição tecnicamente exigente — os F50 exigem tomada de decisão em frações de segundo, coordenação constante com trimadores e estrategistas, e resistência física para lidar com acelerações e cargas muito superiores às de um barco olímpico convencional. O próprio histórico de resultados do time ao longo da temporada reflete essa curva de aprendizado em uma modalidade ainda pouco disseminada no Brasil.

O que muda para o Brasil no SailGP até o fim da temporada

Com a nova formação, o Mubadala Brazil chega às três etapas finais de 2026 sob comando de Paul Goodison, um dos velejadores mais experientes do grid internacional, o que pode significar uma tentativa da equipe de estabilizar o desempenho técnico na reta final do campeonato. Marina Arndt, ao assumir a estratégia, passa a ocupar um papel central nas decisões táticas de prova — área que tende a ganhar ainda mais relevância diante da proximidade entre as equipes nas últimas posições da tabela.

Para o público brasileiro que acompanhou de perto a estreia do SailGP no Rio de Janeiro, a saída de Grael marca o fim de um símbolo: a presença de uma bicampeã olímpica e ídolo nacional no comando de um dos catamarãs mais rápidos do mundo. A expectativa agora se volta para como a nova formação vai se comportar nas etapas restantes da temporada e para os planos da equipe rumo à temporada 2027, ainda sem confirmação oficial sobre o formato da tripulação brasileira no próximo ciclo.

O calendário que resta e o legado da passagem de Grael pelo SailGP

A temporada 2026 do SailGP é, segundo a própria organização, a mais longa da história da liga, reunindo etapas em diferentes continentes e testando a resistência física e mental das equipes ao longo de praticamente um ano inteiro de competição. Faltando três etapas para o fim do calendário, o Mubadala Brazil chega a este momento decisivo já com a nova dupla de comando, o que reduz o tempo de adaptação de Paul Goodison e Marina Arndt à configuração completa do F50 antes da disputa valer pontos novamente.

Para uma equipe que carrega o peso de representar a estreia sul-americana na competição, o desafio nas etapas finais não é apenas técnico. É também simbólico: manter viva a relevância do projeto brasileiro em uma liga dominada por potências tradicionais da vela, como Austrália, Espanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que se planeja o futuro da equipe para a temporada 2027 — ainda sem confirmação pública sobre quem assumirá a posição de driver em definitivo a partir do próximo ciclo.

Do ponto de vista esportivo, a passagem de Martine Grael pelo SailGP deixa um legado que dificilmente será apagado das estatísticas da liga: ela permanece como a primeira mulher da história a comandar um F50 em competição oficial, um feito alcançado dois anos antes de sua saída e que abriu caminho para discussões sobre representatividade feminina no comando das embarcações mais rápidas do mundo. A curva de resultados do time — da adaptação inicial ao circuito, passando pela primeira vitória em regata em Nova York, até a 13ª colocação final na temporada 2026 — reflete o tamanho do desafio de transformar uma equipe recém-formada em competitiva contra estruturas que já disputam o SailGP desde a fundação da liga, em 2019.

Enquanto isso, o interesse do público brasileiro pelo esporte segue em expansão, impulsionado justamente pela realização da etapa do Rio de Janeiro em 2026 e pelo crescimento do turismo náutico no país, que segundo projeções do setor deve movimentar bilhões de reais em receita até o fim da década. A combinação entre um evento internacional de alto nível disputado em solo brasileiro e a exposição gerada pela trajetória de uma atleta do calibre de Martine Grael ajudou a colocar o SailGP no radar de um público que, até pouco tempo, conhecia a vela apenas pelas competições olímpicas.

Fonte

As informações deste texto foram apuradas com base no comunicado oficial do Mubadala Brazil SailGP Team, no anúncio feito por Martine Grael em suas redes sociais e na reportagem da revista Náutica, publicada em 11 de setembro de 2026.

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